11.12.09

Pode-se muito bem enlouquecer por as coisas serem como são,

foi o que aconteceu visto daqui agora. A vida e está.

Nãomais frio que arrepie, nãomais nada que doa.

Um louco faz o que pode e vai andando por como

os outros andam, a rir, a comprar a lotaria e a fazer

festas aos meninos que são bonitos, tão bonitos os meninos.

A loucura deve ser muito triste vista de fora.

Um homem vazio enche-se de coisas doidas às voltas

e não há rezas que valham um insorcismo.

Diabos velhos espreitam os corpos desabitados,

é assim que o mal acontece, assim elas mordem.

Uma mulher que gostava de amar furou um homem,

foi por ali à vida dela, pediu silêncio e compreensão.

A vida é engraçada e toda cheia de variedades.

O pior é o inverno e o resto, o resto é que é o diabo.

28.11.09

Todo cheio de espinhas

Todo cheio de espinhas

o corpo e o resto, a vida e tal.

Todo a arder sem beijos nem gente.

Aqui dentro vive-se mal

e lembra-se muito outro tempo.

A noite pode ser uma amiga nua,

uma amiga nua também.

Alguém me segure este nada

que eu volto num instante dos meus.

Se alguma coisa me chamar

eu vou e fico lá, a viver

para o boneco e a fazer assim.

Quem me agarra, cara linda?

9.11.09

Acordar um Dia XXXVI

"quero ver as coisas gastas como palavras velhas
a encher a rua em desafio
quero ver ecopontos sem cor para as coisas sem cor que já
sabemos de cor"

Acordar um dia com o inferno dentro da gente, virar-se para o lado e abrir os olhos e abrir a boca.

Anda menina, vem ver o inferno a arder”.

Ao lado não dorme ninguém que saiba rir do apocalipse, fica tudo suspenso.

Viver é andar todos os dias à caça de gente e a fugir da dor.

Anda menina, anda ver o que por aqui vai”.

Por dentro está tudo feito em carvão, nãonada que sirva.

Ando há muito tempo amigado com o diabo. Vai de retro Satanás, um dois, dois passinho para o lado, três quatro, uma volta pela esquerda, palminhas mãos ao ar.

“A dor dança-se assim, menina”.

3.11.09

Nota Pessoal

Estamos em Novembro de 2009 e a vida é muito fraca às vezes.

Partiram o muro de Berlim, inventaram a Internet, foi descodificado o genoma humano e aos domingos de manhã eu acordo com uma tristeza inaudita.

Nem a construção europeia me sabe curar as ânsias. Se eu tivesse tido uma infância com ditadura seria tudo mais fácil, assim é só isto, paz, pão, democracia e a porra dos domingos de manhã.

1.11.09

Rua Escura I



cães escuros a lamber os cantos da cidade,

línguas ásperas feitas às pedras e ao resto.

Manda os olhos e o medo por onde os pés não vão,

vidas por todo o lado.

abrigos órfãos de luz

onde a solidão se come às mãos cheias

e se canta baixinho para não acordar os vivos.

fomes que se matam escondidas.

As vozes e o querer dobram esquinas, a luz não.

De dia é fácil ser homem por entre os homens,

o dia é avenida do tempo, rua direita.

À noite o corpo tem pés ligeiros e surdos

e o tempo faz-se de muitas horas compridas.


(Ilustração de Marco Mendes)

27.10.09

Cosmogonia

Num tempo antigo o mundo era todo feito de noite. A Terra era uma pedra escura parada e morta num lugar que ainda não existia.

Nesse escuro sem fim o tempo durava muito tempo e os deuses jogavam à apanhada porque havia pouco mais que fazer.

Flávia era uma deusa e às vezes pegava na lua e corria pelo mundo alumiada pela sua luz frágil. Flávia gostava de saltar e de rir sozinha porque atrás dela vinha sempre Damião, também ele um deus que pendurava o sol na ponta de um pau e se apaixonava por Flávia porque pouco mais havia que fazer.

Uma dessas vezes em que Flávia corria, a lua estava nova e ela tropeçou na terra e caiu. Flávia rompeu-se em mil pedaços que caíram sobre a terra. Dos seus bocados formaram-se os mares, as plantas, as mulheres e o invisível.

O deus Damião assustou-se ao deixar de ver Flávia e atirou o sol para a frente, o mais longe que pôde numa vontade grande de a encontrar. A luz fugiu-lhe e também ele tropeçou na terra e caiu. Damião rompeu-se em mil pedaços que caíram sobre a terra. Dos seus bocados formaram-se os rios, os animais, os homens e os poetas.

Flávia e Damião foram os pais da terra e de tudo o que é. Flávia continua ainda hoje a fugir e Damião a correr atrás dela. É por isso que o sol vai sempre atrás da lua, que os rios procuram o mar, os animais as plantas e os homens as mulheres. É também por isso que os poetas não sabem da felicidade.

22.10.09

O Coração à Frente

A vida, a morte, mais os amores e o que nos parta.

A gente na rua, a gente em casa, a gente que somos.

O coração à frente, como numa pega ou um primeiro amor.

Com o depois a vir depois, frio e morto visto daqui.

O último a mergulhar é uma coisa velha.

O mar não nos mata porque sabemos morder,

sabemos rir e sonhar o que o mar não sabe.

A dor vem amanhã ou depois, vem sempre,

vem porque tem de vir, sente-se nos pés

quando o salto é grande. No fundo do peito às vezes.

A dor é uma voz do corpo de quem salta.

O coração à frente, como quem canta.

O bem que nos chega é sempre pouco

para o mal que nos espera.

Vamos hoje fazer tudo o que nos falta,

música, amor, dádivas e tempos felizes.

Somos ainda tudo o que podemos ser,

somos ainda tantos, como os vivos.

Alguém que berre e partimos,

o último a mergulhar é uma coisa velha.

18.10.09

Acordar um dia XXXV

Acordar um dia que é domingo por todos os lados.

Nestes dias as casas vingam-se, as paredes tomam liberdades inusitadas.

Aos domingos, certos domingos, são as casas que nos habitam.

Alguns homens vão à missa, ondeCristo e cantigas mas não há salvação.

O domingo é um bom dia para se ser cão ou criança, a esses nãoquem os engane.

15.10.09

La Nave Va

Nunca se perde tudo, não é? Nunca se tem tudo não é?

Guarda, guarda quanto sto bene... adesso senza un braccio, senza cuore, senza un perché, cosi leggero, leggero...

O silêncio é grande calado em muitas línguas, parece escolha, um modo de não ser nada em lado nenhum.

La vita è sempre da un’altra parte, dopo l’angolo, dopo domani, dopo di me.

Nada de tragédias moço, não é assim que as coisas são? Os cacos são mais resistentes do que o prato, os santos que ajudam, a entropia aos pinotes.

Um homem sai à rua com uma manga vazia e há quem tenha pena do maneta, assim tão novo, assim coitado. Ninguém se lembra de chorar o braço que ficou em casa em manguitos sem fim. O pior de tudo é ainda aquela comichão no sovaco.

La nave va, venite, venite che partiamo verso un giorno migliore.

De toute façon, d’ici on peut bien imaginer la mer.

11.10.09

Cadernos de Perda II

palavras que se perdem por uma palha. Por erros, por esquecimento, por culpa dos dias. Ninguém perde uma perna que não conta, as palavras sim. A alguns sítios não se chega sem pernas nem certas palavras, mas nós sabemos rir e coxear vidas curtas cheias de cansaço.

lugares vazios onde as palavras correm à solta e gente sonha em agarrar gente. Nada é fundamental, nada é prescindível, sobretudo a certas horas. Levante o braço quem nunca acordou embrulhado em muito amor. Esse amor da manhã não é à prova de água, sai do corpo com sabão e fica às voltas muito tempo numa espuma branca que não é nossa.

As palavras também se perdem escritas, gritadas, gemidas, choradas, caladas em frente a uma pergunta. Levante o braço quem... pois. A um amigo como eu tiraram-lhe das tripas um quisto de meio quilo, mas ele sabia que era uma palavra posta ali com vergonha. O meu amigo diz agora que o silêncio é um ramo do fazer mal. Eu apalpo o ventre e vou dizendo que sim.

8.10.09

Πηνελόπη

Uma janela sempre aberta ao som do vento. O vento sabe empurrar o tempo, trazer o tempo para perto, onde ele é mais preciso.

O ar soprado toca o corpo sem pudor, sem perguntas. Dedos de um deus distante que um dia inventou arder.

Neste quarto antigo nãodias depois dos dias, nem tempo há neste lugar. Este quarto não é um sítio, choro e dor sem corpo.

Um grito a favor do vento chega onde quer chegar, vento também, sopro de dentro para fora.

À noite os corpos feridos não precisam de boca para falar.

6.10.09

Procura-se III


Coisas que se procuram:

- Sonhos todos novos, por estrear.

- Uma memória com um botão "Apagar" e outro "Escrever por cima".

- Gente como a gente.

- Algum tempo para tratar de assuntos.

- Aquela música que um dia me mostraram e eu já esqueci a letra e a melodia e a cor dos olhos dela.

- Os dias em que os discos tinham um lado B.

Pede-se o favor de responder com um aceno discreto à entrada ou à saída de qualquer coisa.



5.10.09

Cadernos de Perda

O deixado cai num poço que lhe pertence, um poço com nome.
Quem deixou fica lá longe à tona, à altura do mundo.
O deixado faz-se ridículo, esbraceja e grita como um boneco.
No olhar estrangeiro de quem deixou não há luz nem há já nada.

A pena é também distância, como a dor e duas pessoas.

4.10.09

Acordar um Dia XXXIV

Acordar um dia sem ter dormido.

De manhã a vida que tenho não me serve para nada, pelo menos hoje, pelo menos para mim.


2.10.09

Niña en Forma de Recta

La verdad es que ya no era una niña. O mejor, sí, era una niña. Había permanecido así cuando todos los demás habían olvidado lo que eran. Acaso alguien haya dicho "Ella es como es”, y tenía razón.

En cuanto aprendió a mirar decidió hacerlo tan sólo en una dirección, al frente. Todo lo demás era intuido, imaginado, conocido sin necesidad de verlo con sus ojos de mirar al frente. El afuera, el otro, lo diverso, eran para ella un mundo probable y rumoroso hecho de cosas y personas extranjeras, habitantes fantasmas de una realidad que no era la suya. Su mundo estaba allí, ante los ojos claros, sus ojos ceñudos, enfocados en una distancia que no se ve sólo con mirar.

Para la niña todo era simple y recto, lineal. Una variable de partida, otra de llegada y un pendiente personal; no existía nada más. Los que cruzaban su carretera eran para ella pequeños puntos, la intersección de una curva (la curva de una vida hecha de caprichos) y su recta. Los ríos no avanzan rectilíneos porque están condicionados por montes y valles que no saben ignorar, pero la niña cavaba los montes y construía puentes en los valles que no veía, que para ella no existían.

La distancia más corta entre dos puntos es un enorme anhelo. Un anhelo sin distracciones, un anhelo que no baila, que canta siempre la misma música de los días. El resto es espuma y tiempo perdido, un mar parado que se agita sin razones. Le gustaba a la niña la tierra firme donde los pies no resbalan, donde el pasado queda atrás, marcado por las huellas.

El amor le sucedió dos veces a la niña, dos amores fugaces, amores de trazado(1). La primera vez que se enamoró fue de otra recta que condescendió en serle paralela, un amor a una distancia pequeña, pero no desdeñoso. La distancia entre dos manos que casi se tocan, día tras día, casi, siempre casi. La otra vez no le llamó amor, nadie lo hizo, fue un acontecimiento que no aconteció. Una sinusoidal la cruzó diversas veces hasta que se volvió anharmónica, dejando tras de si el trazado de un accidente.

La niña sigue la carretera que debe seguir y no llora y no canta. Quien mira al frente no tiene tiempo para pensar mucho. Una variable de partida y otra de llegada, un trazo recto, casi continuo, casi. Los puntos blancos no le pertenecen, son espacios y tiempos de otros que tal vez un día quieran rellenar. Los anhelos de los otros son anhelos de otros.


Uma bela tradução de Silvia Capón que também é culpada de escrever e o faz muitíssimo bem (textos aqui e aqui).

Para ela um obrigado e um abraço.

29.9.09

Coisas da Rua



Parar o próprio movimento e ficar ali, debaixo de uma velha canção dos Smiths que vem mais da memória do que do rádio. Sujeitar-se ao que de pior pode acontecer a certas horas em que a chuva não nos entende.

Quando o verde chegar pode ser já demasiado tarde.


(Ilustração de Marco Mendes, Now also in English)

27.9.09

Uma Fábula Eleitoral

Era uma vez, antes ou depois de agora, uma terra onde as pessoas viviam. Era uma terra abençoada por Deus e por outros, cheia de tudo o que se quer para viver e onde os dias seguiam tranquilos ao som de música e palavras doces. Nessa terra que se perdeu, os políticos eram homens notáveis e amados pelas populações. As sucessivas gerações de estadistas foram aprimorando os caracteres e assim se criou uma elite virtuosa capaz de satisfazer as necessidades e os desejos dos eleitores.

As pessoas perceberam então que com uma tal classe dirigente não fazia sentido que fosse o povo a escolher os políticos, deveriam ser estes a decidir que gente representar. Assim começaram as campanhas, os diferentes povos mimavam os políticos, faziam-lhes promessas, beijavam-lhes os filhos e davam-lhes presentes. Todos tentavam convencer os grandes líderes, aliciando-os para que os escolhessem a eles como súbditos. Nenhum povo olhava a meios para ganhar os favores de um dos iluminados.

Este sistema durou algum tempo e segundo alguns estudiosos foi a causa do declínio dessa terra. Nos registos de época encontram-se artigos e crónicas em que os líderes, embora louvando os méritos de um tal sistema democrático, explicavam que o problema não era das eleições, mas sim dos povos que eram sempre os mesmos.

22.9.09

Procura-se II

Pessoa feita triste por verbos pretéritos e palavras ouvidas.
Alguém que seja capaz de se surpreender com gestos incompletos e actos falhados.
Pede-se o favor de responder através de um sorriso vago que possa ser tudo.

19.9.09

Menina em Forma de Recta / Bambina in Forma di Retta

Menina em Forma de Recta

A verdade é que não era uma menina. Ou melhor, sim, era uma menina. Tinha permanecido assim quando todos os outros se haviam esquecido do que eram. Alguém terá ditoEla é como é” e tinha razão.

Assim que aprendeu a olhar decidiu fazê-lo apenas numa direcção, em frente. Tudo o resto era intuído, imaginado, conhecia-o sem precisar de o ver com os seus olhos de olhar em frente. O fora, o outro, o diverso, eram para ela um mundo provável e rumoroso feito de coisas e pessoas estrangeiras, habitantes fantasmas de uma realidade que não era a sua. O seu mundo estava ali, em frente aos olhos claros, os seus olhos franzidos, focados numa distância que não se com um olhar.

Para a menina tudo era simples e recto, linear. Uma variável de partida, outra de chegada e um declive pessoal, não existia mais nada. Os que cruzavam a sua estrada eram para ela pequenos pontos, a intersecção de uma curva (a curva de uma vida feita de caprichos) e a sua recta. Os rios não seguem a direito porque estão condicionados por montes e vales que não sabem ignorar, mas a menina furava os montes e fazia pontes nos vales que não via, que para ela não existiam.

A distância mais curta entre dois pontos é uma enorme vontade. Uma vontade sem distracções, uma vontade que não dança, que canta sempre a mesma música dos dias. O resto é espuma e tempo perdido, um mar parado que se agita sem razões. A menina gostava da terra firme onde os pés não escorregam, onde o passado fica para trás, marcado pelas pegadas.

O amor aconteceu duas vezes à menina, dois amores fugazes, amores de percurso. A primeira vez que se apaixonou foi por uma outra recta que condescendeu em ser-lhe paralela, um amor a uma distância pequena, mas não despiciente. A distância entre duas mãos que quase se tocam, dia após dia, quase, sempre quase. Da outra vez ela não o chamou amor, ninguém o chamou, foi um acontecimento que não aconteceu. Uma sinusoidal cruzou-a diversas vezes até que se tornou anarmónica, deixando atrás de si o traçado de um acidente.

A menina segue a estrada que deve seguir e não chora e não canta. Quem olha em frente não tem tempo para pensar muito. Uma variável de partida e outra de chegada, um traço direito, quase contínuo, quase. Os pontos brancos não lhe pertencem, são espaços e tempos de outros que um dia talvez os queiram preencher. As vontades dos outros são vontades de outros.


Bambina in Forma di Retta

La verità è che non era più una vera bambina. O meglio, sì, era una vera bambina. Era rimasta così quando tutti gli altri non sapevano più cosa fossero. Qualcuno avrà detto “lei è cosi com’è” e ha detto bene.

Dal momento in cui imparò a guardare, decise di farlo soltanto in una direzione, avanti. Tutto il resto lo intuiva, lo immaginava, lo conosceva senza doverlo vedere con i suoi occhi fatti per guardare in avanti. Il fuori, l’altro, il diverso erano per lei un probabile e rumoroso mondo fatto di cose e persone straniere, abitanti fantasmi di un mondo oltre, un mondo che non era il suo. Il suo mondo rimaneva li, davanti ai suoi occhi chiari, i suoi occhi stretti, focalizzati al di là di quanto si possa vedere con uno sguardo.

Per la bambina tutto era semplice e retto, lineare. Una variabile di partenza, un’altra di arrivo e una sua pendenza personale; non c’era nient’altro. Quelli che incrociavano la sua strada erano per lei piccoli punti, le intersezione tra una curva (la curva di una vita fatta di capricci) e la sua retta. I fiumi non vanno dritti perché sono costretti da monti e valli che non sanno ignorare, ma la bambina rompeva i monti e costruiva ponti sulle valli che non vedeva, che non erano per lei.

La distanza più corta tra due punti è una voglia immensa. Una voglia senza distrazione, una voglia che non balla, che canta sempre la stessa musica dei giorni. Il resto è schiuma e tempo perso, un mare fermo che si agita senza perché. Alla bambina piaceva la terra ferma dove i piedi non scivolano, dove il passato rimane dietro, segnato dalle impronte.

Per due volte l’amore accadde alla bambina, due amori veloci, amori di percorso. La prima volta che si innamorò fu per un’altra retta che acconsentì di esserle parallela, un amore a una distanza piccola, ma non trascurabile. La distanza tra due mani che quasi si toccano, giorno dopo giorno, quasi, sempre quasi.

L’altra volta lei non lo chiamò amore, nessuno lo chiamò, fu un avvenimento che non avvenne. Una sinusoide la intersecò diverse volte finché diventò anarmonica, lasciandosi dietro il tratteggio tipico di un incidente.

La bambina segue la strada che deve seguire e non piange e non canta. Chi guarda avanti non ha tempo per pensare troppo. Una variabile di partenza e un’altra di arrivo, una traccia dritta quasi continua, quasi. I punti bianchi non le appartengono, sono spazi e tempi di altri che un giorno potranno anche riempirli. La voglia degli altri è una voglia di altri.

14.9.09

Acordar um Dia XXXIII

Acordar um dia com uma erecção e nenhum desejo. Uma erecção inútil e vazia que se desfaz em lágrimas e em mais nada.

10.9.09

Procura-se

Pessoa de poucas falas e escassa presença.
Pessoa capaz de ser invocada por via de pouco: um reflexo azul, um cheiro a incenso, umas calças caídas no chão do quarto.
Pede-se o favor de responder com um nome e nada mais que um nome.

7.9.09

Mariana (Quarta e Última Parte)

A partir desse momento tudo mudou. Essa consciência do inevitável, da punição infalível, mudou a perspectiva e amainou exaltações. Estávamos juntos, para o melhor e para o pior, na vida (minha) e na morte (sua). Ela era como era e eu também assim, restava-nos baixar as cabeças e puxar o jugo. Talvez aprendêssemos a assobiar baixinho e a chorar como quem respira, sem pensar no gesto nem saber porquês.

Os tempos que se seguiram fizeram-se de compromissos. A voz da Mariana continuou estridente, mas tornou-se contida, quase serena. Começou também a cuidar a linguagem, evitando certas palavras e usando outras que me vai ouvindo. Deixou os lamentos e os protestos e passou a falar de coisas que sente, de memórias de infância e da aldeia que deixou um dia.

Por vezes dá-me conselhos e diz-me que está tudo bem, outras vezes fica ali calada a sorrir porque me pesa os cansaços. Em troca eu tento enriquecer-lhe os sonhos. Leio histórias românticas que são do seu agrado e sigo a telenovela das nove. Comecei também a perguntar aos meus colegas coisas da vida deles, dos filhos, das mulheres e os filmes que têm visto, ah, os filmes. Vamos ao cinema duas vezes por semana, ao início era um filme para mim (sem beijos) e outro para ela (sem complicações), ultimamente começa a ser difícil distinguir.

A Mariana apresentou-se há exactamente dois anos, mais ou menos. Depois foi o que se viu. Acabámos por nos tornar numa espécie de casal quase vulgar e quase feliz. Como tantos, não todos. Talvez gostemos mesmo um do outro, talvez tenhamos descoberto um tesão impossível e assim inesgotável. Talvez sejamos uma simbiose necessária de vida e morte, dia e noite, ser e não ser.

Se eu já pensei? Já. Um frasquinho de comprimidos às cores e a janela aberta para o gato procurar outra casa. Partiríamos os dois para mundos que não conhecemos. Pensei nisso várias vezes, mas tenho dúvidas. Desconfio do além e não me quero pôr nas mãos de Um Qualquer. E depois quem me garante que eu a encontro, que ela existe fora de mim? Que outro mundo me poderia servir se eu nunca cheguei a perceber este, assim finito e cheio de homens? Enquanto penso nisto o gato olha para mim. Ele que também sabe coisas.

5.9.09

Mariana (Terceira Parte)

Que diz um homem às cinco da manhã deitado na cama receando adormecer? Um homem que treme com medo de uma ex-prostituta ex-viva sem papas na língua e com deficiências gramaticais?

Um homem faz perguntas, perguntas que são só uma: Porquê a mim? De todos os clientes da Mariana Marlene, por que fora eu o escolhido para cumprir a punição? Que poderia justificar uma tal arbitrariedade?

Sempre fui um homem discreto, incapaz de incomodar Deus com ofensas ou rogos, e Ele respondera da mesma forma, sem nenhum milagre ou praga a assinalar, mas agora isto... Perguntei bem alto uma e outra vez, porquê eu? Não me dirigia ao Altíssimo mas sim à Mariana, se me ouvia em sonhos talvez se dignasse a responder numa próxima oportunidade. Por essa altura eu estava certo que haveria outras oportunidades.

A resposta chegou à tarde, durante uma sesta no gabinete. Incapaz de aguentar o corpo entreguei-o por breves instantes ao cadeirão em pele. Foi quanto bastou. “É que o Mário não sabe... posso chamar-lhe só Mário? Mesmo que não pudesse, eu chamo-lhe o que quiser e mais nada, olarilas. O que o Mário não sabe e nem adivinha é que foi o meu primeiro cliente, ah pois foi, o primeirinho... eu tinha vindo da aldeia, e nem sabia ao que vinha, foi o senhor Antunes é que tratou de tudo... um sabidão, um safardolas que conhecia mais desta vida do que o padre da missa, olarilas. Eu acabadinha de chegar da aldeia e ele a dar-me as roupitas de andar na vida. Tens de ir ver um senhor, fazes assim e assado e boca calada que ninguém te paga para andares a tocar corneta, ouviste minha linda? E eu lá fui e assim foi. O meu primeiro cliente... e olhe, antes o senhor que outro, que depois de si foram muitos e quase todos piores e mais porcos. Ao menos o senhor era de respeito, não sei se é da picha curta ou quê, mas pelo menos era de respeito...”

Fiquei esclarecido. Fiquei também desesperado e mortificado, mas esclarecido. Um gesto de fraqueza irreflectido, um número de telefone marcado e eis-me com a existência entrelaçada a uma mulher que eu tinha descartado juntamente com o tesão. São sempre os tesões a tramar as vidas dos homens. Uma pessoa estuda e trabalha e acredita em ideias e afinal a vida vai guiada por um pedaço de carne que não conhece a razão nem vontades que não são as suas.

(Continua)

4.9.09

Mariana (Segunda Parte)

Mesmo os sonhos mais acerbos acabam por ceder à realidade, ao sol, aos sons da manhã que entram desfocados pelos estores. Sim, é bem verdade. Não é verdade?

O duche lavou-me o suor fermentado no corpo e o café fez o mesmo a outros fermentos. Vesti-me rapidamente e entrei na rua como quem foge.


A manhã foi de uma banalidade irrepreensível e por alturas do almoço fui capaz de concentrar as angústias numa salada russa altamente suspeita. Foi um dia tranquilo e foi assim até ser tarde. Nunca antes me tinha apercebido das possibilidades felizes e purificadoras escondidas no tédio das aulas e das conversas. Caros colegas, caros alunos, moei-me as horas como quiserdes mas deixai-me a noite para sacudir migalhas.

Voltei para casa carregando um cansaço feliz. Feliz ou idiota, sinónimos de fim de tarde. no apartamento arrisquei o vagar. Meia hora de leituras (deveres e direitos dos sacerdotes na sociedade ateniense), uma pizza congelada, descongelada e engolida e um filme antigo sem surpresas nem desvios. Depois fui dormir, ousadamente fui dormir. Como se o sonho da noite anterior mais não fosse do que um sonho. E aqui fica intuída uma conjunção adversativa, a gosto...

Assim que os olhos se fecharam por dentro, apareceu novamente a abantesma. Meio fantasma, meio diabo, toda pânico e ranger de dentes. Não estava contente o animal... Subitamente após o nosso último encontro caíra num sono profundo do qual acabara de despertar. Também ela tinha sonhado muito, e que haveria de ter sonhado? (a pergunta era sua, não minha) jardins? Mares? Um homem forte e silencioso com medo de relações sérias? Nada disso! (a surpresa era sua, não minha). Tinha sonhado comigo. Não apenas comigo, Mário abstracto e arquétipo (palavras minhas, não suas) mas com toda a minha jornada, nos seus pormenores ínfimos e segundos fugazes. Tinha seguido as aulas, as conversas com os colegas e passado longas horas a ouvir as dúvidas frágeis dos alunos. Não estava contente o animal.

Eram muitas as suas queixas: a voz pedante que lhe dava ganas de um novo suicídio; os colegas idiotas que falam de livros, de filosofia e dos cus das alunas; o filme a preto e branco sem legendas nem beijos, e mesmo a porcaria da salada russa, que lhe tinha deixado um gosto a maionese estragada durante toda a tarde (a minha tarde). Seguiram-se mais berros, lamúrias e resmungos vários. Assim foi até eu me livrar do algoz graças a certas pressões da bexiga, abençoada seja e muitas vezes louvada. Eram cinco da manhã e foi o fim do meu sono. O medo e o amor-próprio mantiveram-me acordado e a falar sozinho enquanto esperava o sol.


(Continua)

3.9.09

Mariana (Primeira Parte)

Era uma pessoa humana, pois claro. Um dia foi encontrada na cama extremamente inconsciente. Morta até. Na cama acontecem muitas coisas importantes e definitivas. Nascimentos, amores e mortes. E nem vale a pena falar dos sonhos, quase nunca vale a pena.

A pessoa humana que o não era tinha um nome que poderia muito bem ser Mariana. Acredito que o fosse. Mariana é até um nome muito possível, é nome de pessoa que existiu e é um nome bom para recordar muitos anos depois. Não neste caso.

Eu não tinha memória da Mariana, mas tinha a lembrança de uma noite. Uma noite em que o seu nome era outro, talvez Marlene ou Tatiana, talvez outra coisa qualquer. Estivemos juntos durante cem euros, oitenta para ela e vinte para a pensão. Depois cada um seguiu o seu caminho e chamou-se como quis. Eu voltei a ser Mário, como sou quase sempre e ela foi sendo o que era antes do telefonema.

Agora algo sobre mim.

Eu estou vivo. Chamo-me Mário e sou professor de história nas horas que não são livres. Nas outras sou muito pouco, leio livros antigos sobre coisas ainda mais antigas e passeio por jardins de gente sozinha. Nas tardes de domingo às vezes vou pescar num riacho falho de peixes. Tenho a idade que tenho e vivo sem ninguém. As poucas mulheres com quem eu falo são pagas. Uma é a dona Lurdes que me limpa a casa e me passa a roupa dois dias por semana. As outras têm muitos nomes e encontram-se pelos jornais. Uma ou duas vezes por semana, às vezes menos, às vezes mais. Eu pago e falamos, pouco, que elas não estão ali para falar e eu também tenho os meus caprichos.

A Mariana apresentou-se há exactamente dois anos, mais ou menos. Dois dias depois de tomar uma embalagem inteira de comprimidos, mais ou menos. Bem sei que pode parecer estranho, mas é sobretudo incomodativo. Eu dormia um sonho meu, de voos, quedas e mulheres disformes, dessas que se sonham. De repente ela apareceu-me num fundo negro de direito de antena. Cumprimentou-me como se me conhecesse e desatou a falar. Falava muito, e falava de tudo. Eu sonhava apenas e não queria saber daquilo, mas a Mariana não é de subtilezas, entrou por mim adentro sem limpar os sapatos e disse o que tinha a dizer.

Falou-me de como tinha acordado num lugar escuro e vazio, vazio de gente. Falou-me do tédio daquilo tudo, de como não tinha fome nem sede e também das perguntas sem resposta. A Mariana sabia-se morta, mas não lhe parecia motivo suficiente para um tal tratamento.

A mulher não se calava e usava todas as figuras de estilo das conversas banais, numa retórica aprendida em autocarros e filas do talho. Uma noite inteira de triplas repetiçõesEu gritava, eu gritava, eu gritava...” de hipóteses e antítesesMas como é que eu morri? Como é que eu não morri?” De exemplos na primeira pessoa “É que eu se mandar uma pessoa para algum sítio não a deixo ali sem dizer água vai ou água vem...” e outros recursos afins. Foi a sua primeira aparição, foi horrível, foi desesperante, foi o início.

(Continua)

2.9.09

Acordar um Dia XXXII

Acordar um dia cantando e bailando como se não se morresse nunca.

Dois Contos Dois

Um conto meu foi publicado na Revista Voca, um outro na revista/fanzine Qu'Inferno.

1.9.09

Um Crer Assim Tanto

Sob a forma de letras nas páginas de um caderno. Assim e . Um caderno de linhas direitas e palavras com letras em diligências de sentido. Encontrou-o ao voltar para casa, estava para se sentar no banco do autocarro e deu com ele ali guardado. Estava fechado, com a capa de fora e o resto dentro. Isso das linhas e das palavras. Olhou à sua volta mas ninguém tinha cara de autor, por isso levou-o para casa, abriu-o e leu-o.

O caderno era um diário, ou melhor, era uma tentativa de diário. Fragmentos de sucessos, pensamentos e memórias sem estrutura de tempo ou de lógica. Ela estava habituada a ler, por isso percebeu tudo. A letra era de homem e algumas páginas tinham manchas de café e cinza de cigarro, pode não parecer importante, talvez não seja. As coisas escritas interessavam-lhe e ela leu tudo, de enfiada. Depois leu mais uma e outra vez, de forma a compreender melhor o que pudesse ter escapado. Estava habituada a ler.

Ficou surpreendida em mais do que um modo. Nem tudo a impressionou, mas nada a deixou indiferente. As histórias contadas eram simples, acontecimentos que não mudam vidas, viagens de idas e voltas, dias de espanto e outros de tédio. Algum livro lido, telefonemas do passado e ideias sem rumo. Era-lhe estranho ouvir de novo (ela ouvia quando lia) alguém a falar de si. Falar assim, a sério, de coisas feitas, dos momentos em que se percebem palavras antigas, de minutos passados na primeira pessoa, dos intervalos do ser em que não pertencemos a mais nada.

Ela vivia sozinha desde a partida de um homem, do homem. Ele que também escrevia e que a acostumou a ouvir palavras diferentes, a ler o escritor em vez da escrita. A escutar as frases elegantes e complexas com as quais ele ganhava a vida. Eram frases bonitas, em que ela se perdia sem dificuldade, mesmo quando as não entendia. Sobretudo dessas vezes. Ele dizia-se poeta e ela dizia que sim, depois beijava-lhe as mãos e as palavras e repetia baixinho “poeta”. Um dia ele partiu, morreu, fugiu ou ainda pior. Foi e levou as palavras. Desde então ela nunca mais leu, porque não conhecia outros poetas.

Mantinha algumas amizades que eram feitas de banalidades e do medo de solidão. Os seus amigos estavam semprebemoumais ou menos”, uma vez por outraum bocado em baixo”, dia após dia encerrados nos sentimentos das telenovelas que viam e que gostavam de comentar. Eram moderados, contidos, mal sentidos e mal ditos.

A voz no caderno era diferente. Apesar das frases curtas quase sem adjectivos, era uma voz de inseguranças, depressões, delírios, paixões. O estilo era diferente do que conhecia, mas isso não interessava, era o caderno de um poeta, de um outro poeta. Este era subtil e escondia-se em expressões batidas, dizia por exemplo “os homensem vez de “aqueles que sofrem”, falava do mundo como alguém que vivesse; era delicado, omitia a morte de pessoas queridas e as doenças da juventude. Mas ela sabia ler até nas entrelinhas, via a beleza do que fora deixado de fora, a sensualidade presente na omissão do sexo, e não se deixava enganar pela simplicidade. Este era um poeta dos incertos. E depois esse caderno, deixado ali como se não fosse para ela e unicamente para ela. Quem mais poderia ter apreciado esse dom? Quem outro que não ela saberia dar o valor devido às linhas direitas de palavras com letras?

Nessa noite houve sonhos, um sonho. As frases do caderno andavam à roda e eram ditas ora por ela ora por um homem de barba, um homem belo. Não era o que dizia, mas como ela o ouvia, em voz baixa e para ela. “Hoje fui ao mercado”, “Custa-me acordar tão cedo”, “Porque me gritou hoje a Teresa?”, ela percebia tudo e ria por dentro e por fora do sono enquanto descascava as metáforas devagarinho. Ria da sua ironia, capaz de confessar os desejos simples que seguramente não eram os seus. Ela estava habituada a ler, mesmo em sonhos, mesmo os sonhos.

Foi o início. Passou a estar mais atenta, fixava as caras e os gestos sempre à procura, sem saber sequer se o queria encontrar. Quem me olha, quem me pensa? Ela sabia que ele a via, que a via muito dentro. Ela não o via a ele, mas relia o caderno todas as noites e entrava cada vez mais fundo nesses abismos de uma mente intricada. Ele era discreto, ou talvez tivesse receio, ainda assim fazia-se sentir. Deixava-lhe pequenos indícios, subtis, ténues, a ela que sabia ler. Um jornal dobrado em quatro (o quotidiano vencido), o panfleto de uma manifestação (a revolta adiada), um maço de cigarros vazio (os hábitos sublimados). O banco do autocarro trazia-lhe cada dia os sinais de uma presença que ela aprendeu a conhecer e que lhe prometia tudo o que ela quisesse esperar.

27.8.09

Acordar um Dia XXXI

Acordar um dia com as vontades muito longe do desejo. Um dia desses, como outros.

(Procura-se companhia de acordar, pessoa de sono enérgico capaz de esmurrar a tromba à madrugada)

21.7.09

Bico, Penas, Pássaro

Um dia o rapaz passou por um pássaro morto
e  viu as penas e o bico do pássaro morto
Depois o rapaz leu e estudou mas
vinham-lhe muitas vezes à ideia as penas e o bico
Quando um dia se sentiu cheio de tudo o que 
ia guardando debaixo da pele o rapaz
escreveu um livro cheio de si e de poemas
e foi-se enterrar a sós num caixãozinho

18.7.09

Acordar um Dia XXX

Acordar um dia de uma cidade como Lisboa.




Ilustração de Marco Mendes

Trainspotting

Era uma pessoa toda feita de conseguires, rumos e metas embrulhados em lógicas de maquinista louco. Eu queria um beijo, mas quê... Não constituí apeadeiro. Ela por foi, a inventar carris paralelos a nada que fosse meu. Mas em algum sítio ela terá parado. Nenhum comboio viaja vazio por muito tempo. Talvez a mim me faltasse o bilhete, ou eu fosse mercadoria de pouco.

Às vezes ela passa e apita, e eu que durmo na estação aceno com lenço branco e digo adeus aos passageiros que sorriem sem me querer algum mal.

7.7.09

Acordar um Dia XXIX

Acordar um dia com medo. Um medo irracional desses que podem ser provocados por insectos, casas vazias ou mulheres de um certo tipo.

4.7.09

Latência Sonialista ou O Anti-Manifesto de Fim de Festa ou Gere-se Outra Geração

Nós, e eu, e os outros, estamos mortos Senhores, mortos. Fomos paridos nos viveiros das vossas crenças Senhores. Fomos adubados com as vossas ideias iluminadas e nascemos já mortos, Senhores.

Mamámos do comunismo e do anarquismo e do futurismo e do fascismo e do capitalismo e do modernismo e do existencialismo e do pós-modernismo e da puta que vos pariu, Senhores.

Aprendemos a desejar, a ganhar, a comprar, a sofrer, a correr, a trabalhar. Mas não aprendemos mais nada, não sabemos mais nada, não temos memória de nada, Senhores.

Gostaríamos de ter opiniões e de ser inteligentes e pensar o mundo e dizer que não ou talvez, mas nós não sabemos nada e não sabemos saber nada. Somos coisas de querer, não somos de pensar, Senhores.

Compramos o belo feito porque nos disseram que é belo e porque devemos comprá-lo. Nós não fizemos o belo. Nós ainda não fizemos o belo, Senhores.

Não temos vontade porque já nascemos com desejos. Mas nós não desejamos o que desejamos, Senhores.

Nós estamos depois do fim e antes do começar de tudo o que é grande. Nunca nada nos é grande, Senhores.

Não sabemos fazer revoluções e não podemos fazer a guerra porque nós não temos sangue nem corpo. Não temos corpo, Senhores.

Estamos afogados em passados e afogados no futuro. Não soubemos inventar nenhum dos dois e assinámos de cruz um contrato a tempo indeterminado. O nosso único contrato a tempo indeterminado, Senhores.

Nós não sonhamos por nós. Os nossos sonhos são feitos em estúdio e os papéis são-nos dados já escritos. Escritos por vós, Senhores.

Estamos fartos de ser enxames de trabalho, enxames de prazer, enxames de consumo. Queremos o luxo de um nome próprio e uma vida por inventar. Queremos ser livres de uma liberdade que nos foi imposta. Mandar ao ar a ciência e a arte que não procurámos e que não sabemos para que serve. Queremos a tristeza em vez da depressão, a alegria em vez do delírio. Queremos vidas feitas de um tempo e de uma realidade à nossa medida. Queremos um corpo e uma cabeça e um sexo com defeitos e apetites. Queremos levantar o alcatrão e desenhar outros caminhos. Queremos correr estradas que nos levem a um destino todo por descobrir. É isto que queremos, Senhores.

3.7.09

Memória Reinventada

-Lembras-te quando éramos miúdos e ficávamos tardes inteiras a ver filmes de cowboys?

-Não, não lembro. Algumas vez fizemos isso?

-Não sei, talvez não. Mas podíamos ter feito.

-Sim, podíamos.

-Agora é a tua vez...




Ilustração de Marco Mendes

2.7.09

O Marcelo, Décima Oitava e Última Parte

Afastámo-nos do rio de braços dados. Palavra, dados. Assim fomos até à porta de sua casa. O vinho e a noite e eu fizeram-me dizer coisas que talvez não devesse ter dito, muito menos no tom em que as disse. Mas era noite e a Mariana só riu, sorriu e chamou-me tolinho. Despedimo-nos com um beijo. Era de noite, eu era tolinho, foi um bom beijo. Prometi-lhe ganhar mais concursos da rádio e fiquei a dizer adeus com a mão até a porta se fechar.

Não me apetecia voltar para casa. Tinha ganas de cantar alto, dançar, pular e dizer muitas vezes Mariana. O ridículo não mata quem ama, nada mata quem ama. Corri pela rua de braços abertos até me cansar e ficar sem ideias. Voltei para casa.

Entrei e procurei pelo Marcelo, se dormisse acordava-o, em dias assim os amigos imaginários não têm direito ao sono. Podia simular um tropeço e desculpar-me pelo barulho. Ele começa a fazer perguntas e eu faço-me rogado... “não deixa, falamos amanhã” assim até ele rebentar e me obrigar a despejar tudo, mesmo os pormenores. Sobretudo os pormenores. Onde parava o danado?

Sala, quarto, cozinha, varanda. Nada de Marcelo. Por onde andaria a estas horas? Provavelmente enfiado numa sala de jogo, a beber dos copos por uma palhinha. Ou então num bar de strip, onde a sua invisibilidade lhe proporcionava enormes desafios à imaginação.
Sentei-me e descalcei os sapatos. Procurei os chinelos do pato Donald mas não os encontrei. Espreitei para debaixo da cama e não os vi. Não vi os chinelos nem a mala de viagem nem os maços de notas que ela continha. Apenas um envelope, dentro um bilhete e uma nota grande.

Parabéns Alfredo, a rapariga tem mais méritos do que eu pensava, se não tens cuidado ainda faz de ti um homem.
Desapareci, como já deves ter percebido. Foi o que me pediste, não foi? Para dizer a verdade até me caiu a jeito, tenho sítios para ir. Tive o cuidado de levar a mala e o dinheiro, cada um com os seus ganhos. A mim sobram-me as paixões e a ti não te serve o dinheiro. Essa nota é para comprares outros chinelos e outro pijama, afeiçoei-me às riscas amarelas.
Se precisares de mim é só sonhar-me, mas poupa as fantasias. Muda de quiosque se for preciso, muda de cidade ou muda de vida mas não gastes as fantasias.
Agora vou para onde tenho de ir. Nada de ressentimentos rapaz, sobretudo nada de ressentimentos...
Marcelo



Fim

O Marcelo (Décima Sétima Parte)

Nesse dia passaram anos. Das oito da manhã às sete da tarde fui capaz de mil desejos e outras tantas fantasias. Enquanto as mãos andavam de cá para lá a passear papéis pelo escritório, eu fui feliz, fui desgraçado, casei-me, fugi para longe, abandonei e fui abandonado. Como são estas coisas da paixão. Como são ridículas, como são desejáveis.

Almocei com Marcelo e proibi-lhe a fala. Ele ria e eu calava. Quando terminámos pedi-lhe que desaparecesse até que o chamasse. Estava já demasiado cheio de imaginações, por uma vez arriscaria o real em mais vontade do que medo, ao menos uma vez.
Às seis e meia deixei o trabalho e fui comprar flores vermelhas. Levava-as pela rua e estava já com Mariana. As mulheres que amamos devem ser assim, capazes de chegar antes de chegarem.
Ao aproximar-me do quiosque o coração dançava-me, dançava a sério. Ela estava à espera e tinha o cabelo solto, mas as orelhas continuavam bonitas. Recebeu as flores e deu-me um beijo pequenino. Não, não foi nada pequenino. Caminhámos pela avenida nos passos um do outro e falámos de sei lá eu do que falámos. Palavras de passeio, de final de tarde, de rosas vermelhas, palavras excepcionais para usar em horas assim.

Chegámos ao rio e nem nos era preciso. Que importam águas a correr. Sentámo-nos na esplanada do restaurante e ficámos ali a brincar aos nervos. A Mariana falava com voz apagada e doce, falava dela, perguntava de mim, a família como era, a vida como era, os sonhos também. Ria escondida quando eu me atrapalhava e eu ria também, as águas corriam muito por detrás dela, longe da minha miopia. Comemos como comem as crianças, porque tem de ser. A nossa vontade era olhar e falar só por falar.A certa altura Mariana ficou vermelha e perguntou-me porque a tinha convidado. Eu recomecei a história do concurso e ela interrompeu-me com um silêncio benevolente. Então fiquei eu vermelho e pousei os olhos na mesa. Que havia eu de dizer? Saiu-me uma verdade atrapalhada que a Mariana ouviu muito bem. Então tocou-me na mão ao de leve e fez-se muito contente, a mão era quente, eu não sabia que era assim quente.

1.7.09

O Marcelo (Décima Sexta Parte)

Acordei cedo nessa manhã. Tão cedo que se eu cantasse acordaria galos. Mas onde eu vivo não há galos e eu também não sei cantar. Fiquei por algum tempo deitado a pensar na vida com letra pequena. Por qualquer motivo as manhãs fazem-me pensar só com verdades. Provavelmente porque estou ainda meio adormecido, sem lucidez para me saber enganar.

A minha vida antes do Marcelo era monótona, feita de muitas rotinas e solidão. Tinha-me longe das banalidades que se praticam mas substituí-as por outras muito minhas, com livros e filmes a fingirem experiências. Livros com cheiro de livros e filmes com cheiro de nada. Talvez fosse isso que me faltasse na vida, cheiros que não fossem os meus nem os de coisas mortas, cheiros que enchessem a casa e me acordassem pela manhã. Devia arranjar um cão ou uma namorada.

Levantei-me animado com a revelação. Lavei-me, fiz a barba e vesti-me à socapa para evitar os conselhos do Marcelo. Antes mal vestido que passear elegâncias alheias. O que eu estava prestes a fazer exigia-me por dentro e por fora. Saí de casa sem que ele acordasse e desci as escadas como se fosse entrar em palco. Pela rua via-se já movimento, gente que sai de casa antes dos outros e limpa as ruas de remelas. O quiosque Império estava ainda fechado e eu aproveitei para tomar o pequeno-almoço no café em frente. Comi um croissant, bebi um café e quando estava a acender o cigarro via-a chegar. Abriu a porta, carregou os pacotes dos jornais e começou a ordená-los. Decidi-me e levantei-me, melhor apanhá-la sozinha.

Estava bonita nessa manhã, como sempre mas mais. Tinha um vestido curto às flores e o cabelo apanhado em rabo-de-cavalo. Bonitas orelhas.
Dei-lhe os bons dias, ela deu-me o jornal e os cigarros e quando estava para pagar resolvi atacar. “Olhe, por acaso... bem, não quero parecer atrevido ou indiscreto, não o sou, pelo menos creio não o ser... bem, eu queria dizer-lhe que no outro dia, na rádio, havia um concurso desses de telefone e eu... sim, eu telefonei, um jantar para duas pessoas no “Beira-Rio” e pensei, não sei, não leve a mal, se calhar não devia ter dito nada, não ligue, é só que eu pensei...”
“Está a convidar-me para jantar consigo?” Eu devo ter dito que sim, não sei como, mas devo ter dito que sim. “Teria muito gosto, mas não acha que nos devíamos apresentar primeiro?” Eu devo ter dito que sim, não sei como, mas devo ter dito que sim.
“Mariana”
“Alfredo”
“Passe por cá à hora de fecho, lá pelas sete, assim ainda damos um passeio”
Um passeio, sim, teria muito gosto. Por alguns minutos fiquei incrédulo, parecia-me demasiado, excessivo, fora mesmo isso que ela dissera? Durou pouco a incredulidade, assim que me voltei vi o inevitável Marcelo mal disfarçado atrás de um jornal desportivo. Tinha ouvido tudo e repetia as frases de Mariana em todos os tons jocosos que conhecia, que eram muitos. Mas eu nem ouvia o Marcelo nem ouvia nada nem queria saber de nada, ela chamava-se Mariana, às sete íamos dar um passeio e depois jantar a dois, eu e a Mariana.
(Continua, em breve)

30.6.09

O Marcelo (Décima Quinta Parte)

Há milhões de pessoas viciadas no jogo. Slots, póquer, dados, roleta... jogos. Milhões de esperanças que se entregam diariamente a dinâmicas esconsas. “Às vezes ganha-se”, é esse o mantra maravilhoso que vai roendo devagar tantos fiéis da ventura. Pela minha parte sempre fui um céptico, cauteloso, previdente, cobarde mesmo. Mas o Marcelo tirou o “às vezes” da frase e as perspectivas mudaram substancialmente. Ganhávamos, sempre. Jogo após jogo, com maior ou menor facilidade, com sorte e sem ela. Nenhum adversário era para nós intransponível porque aprendemos a conhecê-los. Não há ninguém que não tenha falhas, debilidades, calcanhares do outro. Uma lição importante.

Durante algumas semanas corremos um número improvável de salas escondidas, casinos ilegais e torneios oficiais. Aperfeiçoámos o número e ninguém se ficava a rir. Só nós ríamos, muito e com vontade. Acumulámos uma soma considerável, o meu salário muitas vezes multiplicado e por muitos anos, uma mala de viagem cheia de notas grandes. Tudo aquilo me parecia um longo sonho, com muito fumo e gente embrulhados nas minhas noites.

O Marcelo estava diferente, talvez tivesse voltado a ser o que era antes de eu o conhecer. Incitava-me a luxos a que eu não estava habituado, fazia-me comprar lagostas, caviar, champanhe, iguarias de filmes que eu não costumava ver. Eu fazia-lhe a vontade e nem tinha grandes razões de queixa, uma pessoa habitua-se a tudo, mesmo ao caviar. Uma noite, enquanto digeríamos um jantar de muitos euros, o Marcelo ficou sério e perguntou-me por mim. “Então e agora? Tens dinheiro, muito dinheiro, viste um mundo que não conhecias e aprendeste a praticar o amor-próprio. O que queres vais fazer com isso?”. Parecia uma pergunta simples e eu tentei responder várias vezes até perceber que me faltavam as palavras. Ó raios, que iria eu fazer com tudo aquilo?

“Já vi que não ligas às coisas que a mim me dão prazer. Comes pouco, não sabes beber e vestes qualquer coisa que tenha buracos para enfiar os braços, cada um é como é. Mas diz-me uma coisa de que gostasses, um desejo, um capricho...” Eu calava-me e vasculhava o cérebro à procura de uma vontade, de algum querer. Uma única coisa me veio à ideia e algo em mim o deve ter revelado. “Ainda pensas na miúda da tabacaria não é? Nunca lhe falaste a jeito, mas ainda pensas nela... Pois é isso que tens de fazer, amanhã de manhã compras o jornal e não sais de lá sem a convidar para jantar. Usa a desculpa que quiseres, diz-lhe que ganhaste um vale para dois num concurso da rádio, qualquer coisa, pelo que eu vi não me parece que ela precise de grandes explicações”.
Não sei como é com outros amigos imaginários, mas o Marcelo tem um modo de dizer as palavras e fazê-las definitivas, fazê-las futuro. Era o que eu deveria fazer, Marcelo dixit. Faça-se então o que deve ser feito.
(Continua, em breve)

29.6.09

O Marcelo (Décima Quarta Parte)

Assim que o funcionário abandonou a mesa fez-se uma pausa. Eu aproveitei para ir à casa-de-banho onde pude falar com o Marcelo. Tudo corria bem até ao momento, nada de exaltações, mas tudo corria bem. Chegava agora o momento decisivo, hora de afinar astúcias. O velho e a mulher estavam demasiado distantes para que Marcelo desse conta dos dois, impunha-se uma escolha. Sabendo um dos jogos eliminávamos um concorrente, do outro havia que descobrir algum segredo, uma fraqueza que o tornasse vulnerável, conhecido. À mulher era impossível observá-la, (ainda mais para o Marcelo, dado como era a escorregar em terreno lúbrico) pelo que havia que mirar o velho, alguma coisa deveria esconder, afinal de contas era apenas um homem.
Recomeçámos. Caras lavadas, sorrisos amarelos e falsas simpatias repartidas pelos três. À primeira mão já Marcelo esperava de joelhos por detrás da mulher. Um três de ouros e um sete de paus, coisa pouca. Eu tinha um par de noves, o velho tinha o que tinha. Fosse Marcelo dotado do condão da ubiquidade e talvez o meu estômago não desse os coices que dava. Mas o condão não era e os coices sim.
Partiram as apostas, o meu jogo era superior ao da mulher e o ar seguro deve tê-la desencorajado. Fiquei eu e ele. As fichas foram aumentando na mesa e a última das cinco cartas a ser mostrada era um nove de copas, o que me deixava com um trio. Era uma combinação razoável, muitas vezes suficiente mas ainda assim frágil. Do Marcelo não recebi nenhum sinal e quando o velho subiu a parada eu receei. O sacana era de facto imperscrutável. Não fui a jogo, a prudência dar-nos-ia tempo para o estudar.

Na mão seguinte tentámos outra estratégia, a pedido do Marcelo retirei-me ao início e deixei-os jogar os dois. Ela tinha dois pares, o que lhe dava óptimas possibilidades, mas mais uma vez o velho apostava com energia. Foi por essa altura que a expressão do Marcelo mudou, tinha descoberto qualquer coisa. A mulher mostrou-se corajosa e foi a jogo. Voltaram-se as cartas, o velho tinha apenas um ás, fora um logro. O Marcelo veio até mim a saltar de felicidade e revelou-me a descoberta. “O raio do velho aperta os tomates quando faz bluff, é por isso que não ri nem muda de expressão, está concentrado nas dores lá de baixo”.
Declarámo-nos independentes da sorte e a partir daí arrecadámos tudo o que podia ser arr